Crônicas

Essa vai para a coleção

Meu armário abriga uma coleção curiosa: caixas vazias, sacolas elegantes e potes de vidro sem função definida.

Em comum, todos carregam a mesma etiqueta imaginária: “Pode ser útil um dia.”

Tenho uma verdadeira compulsão por colecionar inutilidades que considero superimportante guardar.

Vai que surge um presente de última hora.

Vai que resolvo organizar a papelada.

Vai que abro uma loja de embalagens recicladas.

Vai que descubro um talento oculto para Personal Organizer e transformo meu armário num caso de sucesso.

Tenho potes suficientes para iniciar uma pequena fábrica de conservas.

O detalhe é que não faço conservas.

Nem pretendo.

Guardo porque vai que preciso.

Mas, vejam bem – isso não quer dizer que sou aquele tipo de pessoa que não desapega.

Sou perfeitamente capaz de descartar um tênis velho, uma roupa que não serve mais, um saco Zip-Loc usado uma única vez…

Humm… ato falho.

O Zip-Loc não.

É só lavar e reutilizar.

A verdade é que não guardamos caixas, potes ou sacolas.

Guardamos futuros imaginários.

Meu armário já não fecha direito, mas sigo firme.

Afinal, quando chegar o grande dia em que eu precisar de uma caixa dourada, três potes decorados e seis sacolas de papel reforçado ao mesmo tempo, estarei pronta.

Ana Helena Reis

Ana Helena Reis é paulistana, pesquisadora e empresária, com extensa produção de textos acadêmicos. Em 2019 começou a se dedicar à escrita literária e à ilustração de seus textos em prosa: contos, crônicas e resenhas, relacionados a fatos e situações do cotidiano. Publica em seu blog, Pincel de Crônicas, em coletâneas, e revistas eletrônicas. Em 2024 lançou seu primeiro livro solo, Conto ou não conto, pela editora Paraquedas/Claraboia, e, em Espanhol, Inquietudes Crónicas, pela editora Caravana/Caburé.

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